Adocicar o paladar de gregos e troianos
Docinhos... tenros, serenos, esquálidos...pálidos,dourados. Talvez quindins, ou bronzeados brigadeiros . Ah! Doce de mamão verde vitrificado, não, talvez doces cocadas...Sim doces cocadas brancas, de coco queimado. Ele as vendia quando criança, nas escolas de São Cristóvão. E assim, aproveitava para ouvir a professora a dar suas aulas. Machadinho... Machadinho crescia e dava valor às letras. Não podia comprá-las... Seu quinhão era inestimável. Ele não tinha como pagá-las. Aproveitava para ouví-las quieto de tempos em tempos sentado nos beirais das portas das salas de aulas. Quando Machadinho cresceu, Machado de Assis tornou-se o grande poeta, contista, cronista, dramaturgo, jornalista, novelista, romancista, crítico e ensaísta. Ele batia nas portas dos corações das pessoas com doces palavras apuradas. Doces dos tachos de bronze. Só pode ser assim, como tudo começou... Seu amor pelas letras, foram dos doces, das cocadas...que vendia. Cocadas? Sim, talvez. Eis a pista no seu livro Dom Casmurro:
“... um negro vendedor de cocadas que passava sempre na Rua de Mata-Cavalos, está no capítulo 18, no qual Bentinho narra:
Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo,
vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou:
- Sinhazinha, qué cocada hoje?
- Não, respondeu Capitu.
- Cocadinha tá boa.
- Vá-se embora, replicou ela sem rispidez.
- Dê cá! Disse eu descendo o braço para receber duas.
Seria ele mesmo, escrevendo de si próprio,? Poderia ser que Machado escrevesse algo que vivera. Pode ser que não. Mas, foi real e verdadeira sua vida. Ele vendia doces quando pequeno. Sua trajetória entre nós foi de intenso sabor. Dá água na boca a qualquer um que lê à seu respeito. Que vontade de segurar-lhe a mão. E ser abençoada por alguém que fez das palavras alimento para a alma. Despertar Machado de Assis de seu sono nas linhas das páginas de seus livros, não é apenas ser inquirido pela receita de seu grande sucesso. Mas, mais que isso! É entrar pelas vidas de seus personagens!É ressuscitá-los! É deixar que nos envolvam. Que penetrem nosso logos e projete-nos para um presente melhor. Machado, então, acompanha-nos para um futuro gostoso...Um futuro que ele via, vivia e imprimia nos papéis. Este, nasce e renasce nos seus livros . É só provar! Machado viaja mundos, tempos, desperta desejos, amores, amarguras, quebra barreiras...sempre com uma ponta de doçura. Deixou em seus livros apuradas palavras impressas.
Hoje cem anos depois de sua morte, o mundo todo ama Machado de Assis, por seus escritos! Que negro cavalo alado! Americanos , europeus e outros mais, estudam as suas obras por décadas. Pelos escritores brasileiros ele é adaptado para televisões , teatro e cinema. Não páram! Saboreiam o doce prazer da leitura. É pura educação prazeirosa, gostosa de se degustar.
Machado de Assis, sua vida suas obras tornaram-se importantes cenários vivos envolventes de todos aqueles que passam pelos seus palcos. Sejam atores crianças, jovens, ou adultos. Sejam estrangeiros ou brasileiros . A vida fica mais doce quando consultadas as páginas, ou melhor os tachos de bronze de Machadinho, o grande Machado de Assis. Ele adocica á gregos e troianos. Há mais de 100 anos!